Havia uma casa na ponta da colina, uma casa antiga e pequena, onde vivia alguém.
Num dia de um ano chuvoso eis que chega um pacote, e abrindo-se, encontra-se uma cadeira.
(Uma cadeira de palha, sem muitos arranjos). Remetente anônimo.
Tinha-se a impressão suave de que já se vira o objeto antes, como em um dejá vù.
Lembra-se da cadeira, num canto próximo, aconchegada em um quarto.
Um quarto de casal? Seria isso mesmo? Não. Um quarto solitário, de um menino.
Brinquedos, roupas azuis e verdes. Uma janela. Um quarto amplo, com uma bela vista.
Seria o quarto antigo de alguém que vivia em uma casa antiga na ponta de uma colina?
Era provável. Olhava-se frequentemente para a cadeira. Tinha-se detalhadas memórias sobre a infância de um menino.
Amigos, corridas até o lago, montanhas ao entardecer, histórias que não o deixava dormir.
Era certo: As memórias de alguém que vivia na ponta da colina.
Na ponta da colina vivia alguém, em uma antiga casa. Suas mãos eram antigas, bem como seus hábitos.
Uma simples cadeira, objeto secundário na infância de um menino. Como poderia acordar tais lembranças?
As lembranças têm sono leve, e acordam com o mínimo de estímulo. Mas o estímulo deve ser certeiro, como uma chave para tal fechadura.
Parece que a cadeira era a chave para as memórias.
Lembrava-se dos medos, das sensibilidades e dos odores agradáveis de água, de terra, de natureza próspera.
Haviam irmãos, pais e primos. Nomes, vinha à tona os nomes.
Danças ao redor da fogueira. Canções de um tempo esquecido por todos.
Lembradas agora por alguém que morava na ponta da colina.
Íngreme colina de difícil acesso.
Acorda-se um dia, olha-se para a cadeira.
A pessoa que mora na ponta da colina, esquecida do mundo, olha para um espelho antigo e vê sua forma.
Uma mulher antiga, com pensamentos antigos.
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